Macongíadas - Canto Terceiro (*)

I
Aproveitando a bela camaradagem
Que os colegas do Huambo nos fizeram,
Resolveu-se fazer uma homenagem
Àqueles que junto a nós aqui vieram.
Enviou então D.Caio uma mensagem
Aos nobres maconginos, os quais deram
Dinheiro p'ra uma ceia verdadeira,
Em honra feita a uma Nação estrangeira.

II
Foram o Vieira e a sua esposa Andreza
Que fizeram os festins tão delicados,
Pois notada por todos é a destreza
Desse belo casal, em cozinhados.
Foi servido o jantar em grande mesa
Que mil delícias deu aos convidados,
Antes porém eu quero apresentar
Alguns daqueles que estavam a cear.

III
O Sócrates por todos conhecido,
Tem um nome por si já afamado.
Aluno muito esperto e entendido
P'los outros sendo querido e respeitado.
O Lara que História sabe de ouvido
Tão bem que conseguiu ficar gatado.
O Neves conhecido por João,
Poeta de elevada inspiração.

IV
Temos ainda o Rei do bandolim
(João d'Almeida, filho de seu pai).
Depois o grande mestre de latim,
Carvalho, que entre todos sobressai.
E a seguir a estes vem enfim
O Rita que com tudo se distrai.
Há também o carquejo perspicaz
Que com a pinga em riso se desfaz.

V
Vê-se uma tola em forma de melão,
O que indica que o Hugo está presente.
E d'entre toda aquela multidão
D.Caio sobressai já sorridente.
Ao lado deste o nobre cidadão
Barão da Baviera está contente,
Talvez por reparar quão bem regado
Viria a ser jantar tão afamado.

VI
Havia muitos nomes pr'a dizer
Mas não vale a pena mencionar.
Melhor, muito melhor é descrever
O que D.Caio disse ao discursar,
Com formas que fez todos comover,
Deixando a multidão a palpitar.
Com gesto encantador e bem lançado
Começou o discurso há tanto esperado:

VII
Vós, irmãos, de outra terra bem distante,
Por todos nós imensamente queridos,
Levai, na vossa alma radiante,
Os sólidos afectos já vividos,
De todos os que aqui estão neste instante.
De palmas, grande salva, os ouvidos
Com fúria atordoou, da malta ousada,
Que depois se lançou à caldeirada.

VIII
Por toda aquela mesa bem espalhados
Se viam muitos pães e muitos pratos,
E também muitos vinhos perfumados
Que às vezes às cabeças dão maus tratos,
Armando entre os que estão mal precatados
Terríveis e cruéis espalhafatos.
Pelo ar se evolou cheiro esquisito
De boa caldeirada de cabrito.

IX
O Rita, pelo vinho comovido,
Tendo na voz tremuras soluçantes,
Quis discursar. Mas antes, um pedido
Ele desejou fazer aos circunstantes:
Queria benevolência. E atendido,
Começou com palavras bem cantantes:
Nem de Camilo ou Braga eu tenho a "verbe"
Pois sou ainda moço imberbe.

X
A vida é uma espinheira mui cerrada
Por onde têm todos de passar...
A malta tem de ser bem avisada
Para que nela se não vá picar.
Aqueles de quem a sorte está lançada
E que outro novo rumo vão trilhar,
Ouçam bem as palavras dum profeta
Se querem atingir depressa a meta.

XI
Naquela altura os vinhos espumosos
P'la cabeça começaram a subir.
E todos se sentiram venturosos
Comendo e conversando sempre a rir,
Nem pensando nos chumbos vergonhosos
Que estavam mesmo prestes a sair.
Os líquidos nos jarros não pararam
E muitos logo ali se embebedaram.

XII
Contou depois o Corte enorme história,
Desde os tempos remotos do Liceu,
Evocando o passado e sua glória
E tudo ali tão bem ele descreveu
Que ficou bem gravado na memória
De forma que a ninguém mais esqueceu.
Contou seguidamente uma chalaça
Que com cócegas só, metia graça.

XIII
O Vitória depois foi convidado
A tomar a palavra num momento;
Ficou, mau grado seu, atrapalhado,
Fazendo uma figura de jumento.
Gaguejou e sentindo-se embuxado
De novo a retomar ia o assento;
Mas o Rita, rapaz de perspicácia
Pediu-lhe então p'ra falar de farmácia.

XIV
Calado estava o Sócrates sentado
Em frente a dois copitos, radiante,
Quando pelos presentes foi saudado,
Compelido a falar naquele instante,
Levantou-se com calma e, contristado,
Mostrando um certo ar cambaleante,
Apenas disse: Isto é o fim do mundo,
Deixem-me em paz pois já não sinto o fundo.

XV
Depois de terem todos bem ceado
Alguns nem dar podiam cinco passos,
E outros condoídos de tal estado
Para casa os levaram em mil braços.
E agora que isto tudo foi contado
Com milhões e milhões de erros crassos,
Só desejo alegria à multidão
Bem como ausência de reprovação.

XVI
Como as musas começam a falhar
E a sombra de Camões a estremecer,
O poema é preciso terminar,
Que todo o macongino o venha a ler
Como D.Caio, o rei, vai ordenar
Com toda a sua força e seu saber.
Que a voz deste poema vá bem longe
Espalhando a eterna glória de Maconge!

(*)(cf. Primeira Edição, de 1959, Agosto, nas Festas da II Confraternização da Antiga Malta do Liceu. Autorizadas a circular, por Sua Majestade Severíssima, D. Caio Júlio Cesar da Silveira.)